domingo, junho 25, 2006
quinta-feira, maio 25, 2006
A tarde de ontem foi-me de horas escorregadias, a deixar-me pernas aflitas de passos a mais a fazer peso numa cadeira de esplanada e olhos cheios daquela angústia que nos vem de não compreendermos certas partes. Ao contrário de hoje, um dia cheio de medidas.
Dizia-te que ontem, coisa de três, quatro passos ao meu lado, outras duas cadeiras – uma com um corpo e uma sem nada. Um corpo de cara já pouco lisa, de olhos amarrados à altura de uma cabeça que não havia. E, pouco depois, aparece um posso?, não percebi de onde, já de braço estendido convicto da resposta. Mas que não, que não podia, que a cadeira ocupada. E os olhos, naquele meio ponto que deve ficar entre a zanga e a tolerância, retomaram o fio.
Falavas-me de uma dança com fantasmas? Talvez isso.
A sério que eu com a cabeça em encontrões de indecisões, que, se toda eu lucidez, me tinha levantado e deitado ao de braço estendido convicto da resposta que lata! Tirar lugar a quem já estava! Mas já as mãos nos braços da cadeira e chegou-me a parte da preocupação com o entretenimento da cabeça dos outros em relação a mim. Deixei-me.
Horas de o sol já gasto, e o da cara pouco lisa de pé, a afastar um pouco a outra cadeira com mãos todas delicadeza. E via-se-lhe, entre as dobras marcadas da cara, a tarde bem pintada.
Mas deixei-me.
Se falavam? Era capaz de te jurar que ouvi murmúrios. Uma tarde de horas escorregadias.
E deve ter guardado o dia. De B A, mas bem pintado.
sábado, maio 20, 2006
domingo, maio 14, 2006
Não te escrevi ontem porque uma noite de ar barulhento pelas fendas da janela e, com isso, um serão de vozes que já não há, de eu a vedar-lhes a entrada, mas nada. Nada mesmo. Todas cá, aos empurrões.
Não muito bem guardado, sabes, o passado.
De modo que hei-de arranjar-lhes daquela fitinha esponjosa. Não lhe sei o nome certo, tenho de andar sempre a vasculhar palavras. Mas hei-de desenrascar-me, arranje-me fita de não entrar vento, por favor, daquela de emudecer o assobio. E que os há, há, os empregados que esbanjam movimentos que não acompanho e pesados de paciência, de revirarem até aqui tem. O sorriso de agrado e eu a ver-lhe, mesmo, mesmo por detrás, a chatice da arrumação. Ele a tentar uma forma de ser só por fora e eu, que pouco levanto os olhos dos balcões, dessa vez, a teimar-lhe que o conduzir-se assim certinho, com tudo contado, não era pressa, mas forma de poder deitar-se e dormir, todo arrumadinho.
Mas falavas de não se andar de olhos tão para dentro, julgo. De haver só uma voz e do grito e de a memória andar atada a uma consciência de só nós.
Se gosto do sono de pessoas de aqui tem? Se mo emprestassem, eu de mão já à espera, deixava as fendas todas destapadas, que nunca deixasse de ser assíduo.
Mas o que te perguntava era se o passado era domingo. É? Carregado de um tempo esticado e nós a querermos que fique mas que assim não.
terça-feira, maio 09, 2006
domingo, abril 30, 2006
Que me deixasse disso, que as marionetas dos dias decalcados, a puxar corpos cheios de costumes são coisas minhas, que o tempo lisinho é coisa que não há por fora. Que isso meu. Disse-me isso.
Está hoje um dia repetido.
E desmanchou-se logo. E eu a dar-lhe atenção, como se os bocados de nós, aqueles que nos empurram à parede, puxam pelo colarinho, ameaçam com uma mão cheia de veias que a pele não tem força para baixar e atiram um não é nada disso!, devessem ser ouvidos. Devem? Talvez, mas há a minha teimosia de saber o pouco tempo que ficam. Desmanchou-se logo, porque já a porta para trás, a decisão do café e a rua corcunda de tudo nos seus lugares, de uma urgência de tudo a postos.
Se se mantivesse inteiro, ter-me-ia explicado, talvez, que o que se não diz, que o vermo-nos o avesso, que o remoinho das palavras de mão na boca são desassossegos da escrita.
Que me deixasse disso.
Mas dizia-te que está um dia vulgar, as casas encaixadas, as pessoas ao mesmo ritmo e, se for altura de loiça na máquina, há-de descer o tronco de mão atrás. Desmanchou-se.
Se te aparecer um bocado desses, com veias de fúria de só é dentro de ti!, chega-lhe o ouvido aí um centímetro de tempo, deixa-o estar. Sempre é um aconchego a um instante como se houvesse uma condenação à calma. À ilusão.
sábado, abril 29, 2006
terça-feira, abril 25, 2006
Um verbo sozinho. Esperar. Tens mesmo razão.
E do que ouvi vinha isso, esse empenho ao vazio. Mesmo entre o agudo dos pires e das chávenas a deixarem-se cair na máquina de as limpar até ao íntimo e o senhor Artur (por meio da história) aqui têm tudo em condições, bem servidos, com uma descida de tronco de mão atrás e à velocidade com que me passam as noites de não dormir. Mas a sério que me chegou esse empenho de que falavas (mas não o sabia dizer) mesmo entre a forma irritante com que nos entra o som de pratos a baterem depois de insónias.
Mas dizias que o regresso traz outro. E se lhe batesse à porta? À porta da senhora que me ficou entre os trocos? Digo eu, eu bater-lhe à porta. Que quando voltar é outro, que ponha só um prato, que os dias assim, com esforços por encolhê-los ao máximo para passarem a ser outros, são forma de se passar pela vida sem fazer barulho. Ou deixá-la a tecer farrapos de nada, de que falavas, no seu tecido? É forma de se estar.
Um verbo sozinho, de facto.
Eu bater-lhe à porta, dizia. Há ideias que nos vêm ao mesmo tempo que as enxotamos. Eu. Como se fosse costume fazer barulho. Às vezes, quando a lucidez não arreda pé, quando a aflição do silêncio, como dizias, tenho a certeza de que hei-de passar assim. Que, por mim, tenho o tempo todo bem polido, lisinho, direitinho. Igual. Morto, dirias, talvez. Hás-de ver que não faço barulho. Palavra. Há pessoas que vêm sem guizo.
sexta-feira, abril 21, 2006
Uma história que ouvi ao senhor Artur. Não que ma tenha contado a mim, ando sempre com os olhos demasiado embrulhados no chão, nas chávenas, nos balcões, na carteira, para me andarem a despejar histórias. Dizia que há histórias assim. Esperas calmas e permanentes. Que um dia a despedida com o regresso mesmo encostadinho, despedida de vais ver que passa depressa, daqui a nada estou cá. E que até hoje. E que a senhora… (ficou-me o nome entre os trocos) com a mesa pronta. Histórias assim, acreditas? Esperas calmas e permanentes? Que por volta das sete dois pratos e os talheres todos.
E anda-me a tarde cheia de barulhinhos. O frigorífico, a espaços teimosos, murmura-me o incómodo de uma vida cheia de costumes. Palavra que é difícil aguentá-lo. Aguentar o frigorífico, pássaros de fim de tarde e histórias assim. Acreditas?