domingo, junho 25, 2006

Ainda pensei em criar uma história, a fingir que não sou eu, com as palavras bem medidas, cheia de frases-isto-não-tem-absolutamente-nada-a-ver-comigo. Mas a verdade é que o que escrevemos fica sempre tão longe de nós próprios, que tanto faz. Se calhar, quem anda metido consigo dificilmente consegue saltar os muros de si mesmo, esgueirar-se por qualquer palavra aberta. Se calhar, resta-nos apenas deixar um grito nas paredes sujas que todos têm dentro – Fulano de Tal esteve aqui! – e ir riscando os dias. Ou escrever como quem lima em vão grades invisíveis. Isto porque falávamos da (in)comunicação, das vozes que se cruzam, das que irrompem do não ser em qualquer esplanada, em qualquer fim de tarde, porque tudo o que existiu existe - ou tudo o que se queria que existisse existe. Ou falávamos, talvez, do silêncio, de como as palavras nunca nos levam ou nos trazem os outros, de como naufragam no ar à beira dos olhos.

12 comentários:

Agripina Roxo disse...

de como naufragam no ar à beira dos olhos...

mas às vezes somos também peixes e conseguimos ir à superfície, e outras vezes comemos com os olhos e saboreamos palavra a palavra de tudo o que nos circunda.

não sei... às vezes queremos a (in)comunicação, precisamos dela, outras, distraímo-nos e as palavras passam mas nós, de tal forma rápido que nos esquecemos de as ouvir

e depois, sei lá, será que o escrevemos fica assim sempre tão longe de nós próprios?! E será mesmo, que as palavras nunca nos trazem ou levam os outros?!

se calhar percebi tudo mal, secalhar sou uma vítima de (in)comunicação, se calhar as palavras naufragam no ar à beira dos meus olhos... não sei...

Margarida disse...

Acho que as palavras chegaram a ti,ou nem terias comentado, e provavelmente tudo o que dizes é verdade - e tudo o que digo também...
É possível que algumas pessoas se saibam dizer melhor, que as suas palavras cheguem a algum porto.
E, se calhar, todos os passos (mesmo que tentativas de passos) em direcção a nós ou aos outros são válidos - até porque talvez não tenhamos alternativa senão ficar nessa "fronteira".
E, se calhar, é uma velha mania minha achar que "as palavras são pedras".

M disse...

até ler este texto, era o eco de todas as outras palavras que impedia o naufrágio cada vez que vinha aqui.as palavras respiravam, e se calhar as pedras também.um beijo.

Margarida disse...

Que um simples texto não te impeça de ouvir a respiração das pedras ou de navegar nas palavras, Marta.

Cada um de nós tem as suas obsessões, e o tema da "distância" entre nós e os outros aparece provavelmente em quase tudo o que escrevo, não sei bem. O que sei é que alguns dos textos deste blogue podem iludir, como aquelas canções de letra a preto e música leve.
Beijinho!

M disse...

Margarida, talvez não tenha sido clara.só queria dizer que sentia falta dos vossos textos, e que o que sustentava o silêncio era exactamente o eco de todas as outras palavras.desculpa-me se não me fiz entender...gostei muito deste texto, tal como de todos os outros.Foi o verbo. As palavras respiram, e se calhar as pedras também.

Margarida disse...

Bem, assim fico mais descansada. Eu é que peço desculpa por não ter entendido à primeira. A linguagem é mesmo uma fonte de mal-entendidos. Obrigada pelos comentários. Beijinho!

Paulo Cunha Porto disse...

Querida Margarida:
Limar as grades invisíveis pode ser muito atractivo, na medida em que é tarefa sempre inacabada, incompatível com o começo do empreendimento da fuga. Porque a escrita não o é: trata-se de distância de nós, sim, mas daquela que advém do domínio aparente das palavras, escravidão muito maior do que a que brota das que soltamos com a ausência de preocupações de redacção. No fim de contas, por muito que se diga, ou, ostensivamente, se omita, as encruzilhadas dos ditos que fluem ou que, ocasionalmente, chocam, poderão sempre transportar a carga de expectativa, umas vezes curiosidade, outras desejo, de ver se algum Outro nos arremata no mercado e concede a atenção que é a única eficaz - mas temporária -saída de nós de que somos capazes. É uma espécie de liberdade condicional do nosso íntimo. Mas é preciso prendermo-nos, antes, para lá chegar.
Beijinhos.

jorgesteves disse...

Vinha agradecer a visita. Demorei-me soletrar os permeios dos silêncios debaixo das palavras e achei um canto de interessantes intimidades; deixo aqui a página dobrada para voltar de garantido prazer.
E, como dizia, agradeço a visita.

jorgesteves

Margarida disse...

Uma vez mais, Paulo, o comentário supera o post - achei interessante o conceito de "ver se algum Outro nos arremata no mercado", partindo do princípio de que se escreve para os outros, mas isso daria pano para muitas mangas, tal como o domínio das palavras (dominamos ou somos dominados?) - e desconfio que, consciente ou inconscientemente, voltarei a talhar essas mangas noutros textos.

Agradecemos ao Jorge a retribuição da visita e sobretudo a "demora a soletrar ao silêncio debaixo das palvras" - pudesse toda a gente ler e ser lida assim.

romã disse...

Subscrevo. Nunc são as palavras que nos levam ou trazem os outros.
É mesmo isso...e ainda bem. :)
obg pela visita.

BlahBlahBlah disse...

"E, se calhar, é uma velha mania minha achar que "as palavras são pedras".

Depende Margarida. Podem ser areia, seixo, calhau, diamante em bruto ou pedra lapidada... e depois, tambem dependem da força do braço e de como são arremessadas :)

Margarida disse...

Sim, há muitos tipos de pedras, de facto, das preciosas aos projécteis, sem esquecer as que se escoam por entre os dedos.Gostei deste enriquecimento da metáfora (que roubei a Vergílio Ferreira). Mas sendo de que matéria forem, são difíceis de moldar como o raio! Excepto, talvez, as palavras de areia, mas, mesmo assim, essas são as tais que o vento leva.

Obrigada por nos arremessares umas palavrinhas!