terça-feira, maio 09, 2006

E o melhor é fechar as portas, sempre te disse isso. É que, depois de entrarem, as pessoas não saem. Passamos o tempo a esbarrar com elas na memória, a sacudi-las das páginas dos livros, a evitar que nos pousem nas palavras. Depois é tarde. E fala-se a uma voz, na mesma. Fala-se sempre a uma voz. Tem é de se gritar, às vezes. Por isso, é que só tu. Mas não era isso que vinha dizer. Queria pedir-te para arrumares melhor as horas, guardar meticulosamente o passado, sem vincos, e lembrar que sempre ajuda saber de cor o dia seguinte e chegar a tempo à vida. Foi o que sempre me disseram. Nunca me explicaram foi como alcançar a calma sem passar pela ilusão - e isso também não sei dizer. Julgo que terá a ver com o avesso. Mas estou convencida de que alguém sabe. E provavelmente até há uma forma de se ser só por fora. Ou de não se ser só eu.

9 comentários:

Paulo José Miranda disse...

muito bonito

Paulo Cunha Porto disse...

Querida Margarida:
Parece-me que, muitas vezes, os ferros em nós cravados pelo Passado o fazem resistir, inapelavelmente enrugado porque severo, à acção de qualquer ferro de engomar que, pela nossa astúcia tranquilizadora, lhe pudesse ser aplicado. Mas essa suprema artimanha que é a calendarização do Ser, através do agendamento dos esbatimentos do "eu" só nos iludirá enquanto não pertencer ao Pretérito. Donde, a calma é como o que hoje podemos achar do Presente: porque dependente de um reconhecimento incompatível com a extrema fugacidade, está condenada a não existir, verdadeiramente. O que nos resta são encenações dela. Há que estimá-las pois, já que andamos acompanhados no tal teatro escancarado que é a nossa vida.
Beijinho.

Margarida disse...

Caro Paulo Cunha Porto: achei muito interessante a imagem dos ferros ( o de engomar e os outros) e o conceito dos esbatimentos do eu - ainda gostava de saber como se chega a esse nível...
Apetecia-me pôr em causa a ideia de a nossa vida ser um teatro escancarado - é que há para aí muitas salas de espectáculos de portas fechadas...

Beijinho.

Turno da Noite disse...

bonito

Margarida disse...

obrigada

marado disse...

Daisy or Margareth, eis-me, novamente, comovido com as coisas bonitas que os verdadeiros seres humanos têm para nos contar. Fazer sonhar é um dom, fico à espera daquele livro, que penso adivinhar saido parte destas "mal traçadas linhas". Ainda há quem escreva bonito!
Beijinhos

Margarida disse...

Marado, acabei de descobrir que és nosso amigo: sabendo-te um "mecinho" sóbrio, só uma profunda amizade leva uma pessoa a dizer desvarios destes!

Bonitas foram as tuas palavras. Obrigada!

M disse...

gostei muito do que li aqui.
muito bonito.

Margarida disse...

Obrigada pela visita e pelas palavras, Marta. Tenho pena que a estrada termine sem que mal a tenha percorrido...