domingo, setembro 24, 2006

E temos de nos vestir de nós, à pressa, a roupa desbotada de todos os dias. A roupa que mal nos pertence, como uma farda incómoda. E a verdade é que, às vezes, mal me lembro de mim. Recito-me de cor como uma melopeia, sem me ouvir. Vou-me desvanecendo pelo caminho. Deixo o sorriso ali, certos gestos mais além, uma canção de que gostava perdida numa gaveta. Esqueço-me de me procurar. Esqueço-me. Deixo-me em casa. Deixo-me em qualquer lado, como um guarda-chuva. E nunca sei que responder quando me perguntam o que é feito de mim. O que é feito de todos nós? O que é feito do que somos feitos?
Dizia-te que voltei, no outro dia. Que achava que sim. De uma longa migração no estrangeiro do que mais sou. E, às vezes, queria mesmo que sim. Queria virar-me subitamente e ver-me lá, como antes. E chamo muitas vezes por mim. Pela que fui. Ou pela que julgo ter sido. Mas mais vezes pela que não consegui ser. Pela pessoa que sei que seria. Toda a gente era para ser outra, como se sabe.
De qualquer modo, se me vires, por exemplo, numa carta por enviar que deixei dobrada num livro que te tenha emprestado, devolve-me. Alisa os vincos e os cantos dobrados (sabes como detesto cantos dobrados) e devolve-me. Tenho-me feito muita falta.

21 comentários:

maria disse...

Cara Margarida,

Desculpa a minha ousadia, mas sinto que este texto poderia ter sido escrito por mim, de tal forma me identifico com o seu conteúdo.

Gostei muito.

Um beijo.

marta disse...

muito bonito, com um final soberbo.
um beijo.

Margarida disse...

Obrigada, Maria, por "ousares". Pessoalmente, tenho sempre a ousadia de achar que ninguém sente o que (ou como) sinto. Secretamente, espero sempre estar enganada.

Beijinhos!


Obrigada por, uma vez mais, leres e gostares, Marta. O final não é assim tão épico, mas soube-me bem o "soberbo", de modo que vou guardá-lo. :)

Mais beijinhos!

Elisa disse...

Margarida
estás enganada. Sente-se muito como os outros. Mais, talvez, com os outros. Eu também senti que podia ser a escrever isto (sem a mesma escrita, mas o mesmo).

Mito disse...

Se me devolveres por correio, faz-me um favor: diz-me se tenho andado em más companhias e se tenho os cantos dobrados. Também me tens feito falta. Como tudo o que fomos. Pensando bem, talvez seja melhor não me devolveres. Deixa-me ficar por aí.

celeman disse...

e também se pode querer não ser devolvido...
Great!

j disse...

Margarida, perdoa-me a ousadia do meu comentário. Mas sugiro que te esqueças, que te deixes nas gavetas, que te dissolvas em cartas e livros. esquece-te de ti. esse, porventura, será o primeiro passo para te encontrares naquele fim de tarde onde o vento suave enche a tua alma de pequenas folhas verdes carregadas de ar puro. não sei....

Quarto do Tempo disse...

"És-te" em cada linha,"aprendo-me" em cada palavra tua, mas não posso devolver nada. Deste por querer e agora também me faz falta. Gostei mesmo muito desta "...Passagem".

Margarida disse...

Assim espero, Elisa, assim espero. Ainda que suspeite que ninguém sai de si. Totalmente. E que a solidão, por isso, também nunca se quebra. Totalmente. Não ligues, é uma ideia fixa. Obrigada pela visita e pelas palavras.

Há pessoas difíceis de devolver, Mito,mesmo que quisesse, o que não é o caso.De modo que te hei-de ler e guardar. De modo que, por mim, nunca mais saberás de ti.

Sim, Celeman, às vezes também prefiro que não me devolvam. Sobretudo se não houver extravio...

Isso já eu faço, J., ando sempre o mais longe possível do que sou. Mas deixa-me dizer-te que o tal vento suave passou ao largo. De forma que, às vezes, tenho medo de me perder o rasto e apetece-me "voltar a mim". Mas é por pouco tempo.

Margarida disse...

Bem, Paulo,é justo. Também já fiquei com muito de ti que encontrei no Quarto do Tempo. É justo. E escusas de cá vir com palavras bonitas que eu, como tu, não devolvo nada. :)

[N] disse...

regressamos alguma vez do que estamos a ser senão sempre como uma memória do que fomos? e teremos mesmo sido ou é só isso, devolução? "toda a gente era para ser outra" ou somos na medida do que nos devolvem, mesmo que estejamos sempre a afirmar "eu sou assim"...?

Margarida disse...

Acho que não é necessário responder, Nuno...Na verdade, seremos, talvez, pouco mais do que a memória do que vamos deixando de ser. Na verdade, somos muito pouco. Percepção e quase nada. Portas entreabertas para ontem.

romã disse...

Enternecedor o teu texto. Impossível ficar indiferente.

Margarida disse...

Obrigada pela visita, Romã. O enternecimento é sobretudo mérito de quem se enternece. Beijinho.

José António Barreiros disse...

«Gostava de ler», gostei de a ler. Não é um duelo, é uma palavra amigável!

r.e. disse...

gosto muito deste texto, Margarida. beijinho. J.

Margarida disse...

Agradeço ao José António Barreiros a visita e as palavras. Abro muitas vezes a Janela do Ocaso desde que a descobri e aceito o convite a diversos voos.

Obrigada, R.E., por também deixares aqui umas linhas e por nunca ficarmos de mãos vazias quando te lemos...

Claire disse...

"Tenho-me feito muita falta."

Me identifiquei tanto com isso. Seja bom ou ruim.

Abraços daqui também.

Margarida disse...

Não sei se deva agradecer a "identificação", mas a a partilha agradeço, sim. E guardo o abraço, naturalmente, que os tempos estão difíceis.

Beijinho!

Ana Fonseca disse...

Adorei! Lembrei-me de mim em muitos dias... Não todos! Há uns em que aceito como "evolução" humana natural esse não saber de quem fui...
Há outros que procuro em todo o lado quem era e já não encontro!
Lindíssimo! Fantástico mesmo, este texto! Parabéns e obrigada pela visita à minha praia! És sempre, por lá, bem vinda! Beijinhos

mitro disse...

Soberbo!