quinta-feira, agosto 03, 2006

Às voltas, às voltas, a remexer as palavras, a ver se as dissolvo num texto. Que o café aprende-se a tomar amargo (aprende-se a tomar quase tudo amargo, talvez), mas os textos sabem-me sempre mal. Por mais palavras que lhes deite. Se calhar, é porque, mesmo que se tenha mil cuidados, destingimo-nos no que escrevemos. Detestaria pensar que isso é verdade, e que cada texto nos desbota a alma. Mas, como sabes, tenho sempre dificuldade em ouvir-me. Em ouvir. Em fechar as torneiras que abafam as palavras que eu sei que existem. Em tirar as luvas de borracha e deixar a loiça suja. Por uma palavra intacta. Por uma melodia completa. Até porque tenho a certeza de que é possível ouvir por dentro. Como, há dias, uma voz cambaleante gritava às gaivotas na avenida marginal, gritava-lhes pedacinhos de pão, acho que à procura de um interlocutor de asas. À mais afoita, lançou-lhe com o pão um “Estás triste? Os teus pais deixaram-te?”. E garanto-te que ouvi. Tive de fechar a complacência dos sorrisos de água dos circunstantes. Mas ouvi
(ou ouvi-me): a voz distinta e rouca do abandono - por entre os salpicos do detergente de loiça.

15 comentários:

Mito disse...

A extraordinária capacidade de ouvir da margarida faz-nos pensar num dos significados de sentir. Se a visão esteve sempre associada ao entender, à razão, a audição esteve sempre ligada à emoção. Basta pensar na música...

Margarida disse...

Bem, Mito, nem sei que te responda, vou só disfarçar o embaraço e dizer que sempre achei que ouvir é algo difícil, pressupõe esse estado de graça que é a sintonia, quase impossível de alcançar.

maria disse...

Só te descobri agora, Margarida, porque foste ao meu espaço e deixaste lá um comentário. Ainda bem que o fizeste porque, graças a isso, tive oportunidade de te retribuir a visita e constatar que gosto de te ler. Já não escapas a fazer parte das minhas rondas assíduas! :)

Parabéns pela tua escrita e um beijinho.

celeman disse...

Destinguimo-nos no que escrevemos e no que sentimos...
estou por cá.

Margarida disse...

Obrigada, Maria e Celeman, pela visita e pelas palavras. Foi um privilégio descobrir-vos.

M disse...

Margarida, também tenho a certeza que é possível, como dizes, ouvir por dentro, e que o redor carece tantas vezes de um espaço de entendimento anterior às palavras. um silêncio que nos aproxime.
um beijo.

Margarida disse...

É isso mesmo de que não consigo deixar de falar - "um espaço de entendimento anterior às palavaras". Obrigada por ouvires tão bem.
Beijinhos!

ARTEMINORCA disse...

Passei e entrei. Li não um mas vários textos e reflecti... É uma escrita no feminino que traduz tanto do que somos...
Obrigada!
Um beijo às duas, Lu

Margarida disse...

Obrigada, em nome das duas pelas tuas palavras tão generosas. É bom saber que somos lidas por pessoas como tu.

Beijinhos!

firmina12 disse...

Também me sinto bem nos seus textos

Margarida disse...

Obrigada pelas palavras, Firmina, e retribuo-as relativamente aos seus textos...

Quarto do Tempo disse...

É simplesmente deliciosa a forma que simples palavras ganham quando escitas para além da nossa mais profunda forma de sentir. Gostei muito destas "Muito bem traçadas linhas" Foi um prazer...

firmina12 disse...

e também é deliciosa a maneira como as pessoas,atravésdas palavras, se vão metendo umas nas outras

Margarida disse...

Igualmente, Paulo, obrigada por nos deixares também algumas dessas palavras.

É um conceito bonito, Firmina,ainda que haja almas difíceis de tocar. A solidão, às vezes, é impermeável.

romã disse...

Olá Margarida.
Sabes uma coisa? Tu escreves muito bem.
Vou guardar-te.
Obrigada pela visita!